Comunicação: conceitos e aplicações

Comunicação: conceitos e aplicações

Comunicação: conceitos e aplicações

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Mariângela Furlan Haswani

O modelo básico de comunicação pressupõe um emissor, que codifica e transmite uma mensagem a um receptor por meio de um canal; o destinatário recebe, decodifica a mensagem e responde. Futuras classificações da comunicação pública levam em conta partes desse modelo.

O processo que se inicia na informação e se desenvolve até o compartilhamento traz consigo um importante vínculo político, especialmente quando se refere à comunicação estatal. As formas e os níveis de ocorrência da comunicação são variados e amplamente explorados na comunicação organizacional.

Quanto aos meios, a web desponta como canal para uma revolução comunicacional, concedendo a todos os espaços de emissão, antes restritos às mídias de massa (jornais, rádio e televisão).

Do dado ao compartilhado

Dado é um registro da realidade, independentemente do contexto. Sua principal característica é não possuir significado próprio, constituindo apenas um registro numérico ou em critérios definidos previamente à coleta.

Thomas Davenport e Laurence Prusak afirmam que dados são acontecimentos distintos e objetivos relacionados a eventos, os quais, isoladamente, nada dizem. Governos de todos os países dispõem de uma quantidade fabulosa de dados relativos a suas atividades para planejamento, operação ou controle.

O cruzamento entre dados pode gerar informações. Informação é um conceito amplo, com múltiplas definições conforme a área do conhecimento. Para Davenport e Prusak, informação são dados interpretados, dotados de importância e propósito.

Rafael Capurro e Birger Hjorland destacam a importância de compreender como o termo é usado em diferentes contextos, já que pode significar desde “busca de informação” até “sistemas de informação”.

Etimologicamente, “informar” vem do latim e significa “dar forma”.

Comunicação, por sua vez, possui vasta gama de definições. Para Carla Brotto, “comunicar” é “tornar comum”. Stefano Rolando entende que há comunicação quando o receptor recebe, compreende e interpreta a informação, ainda que não haja resposta manifesta.

A informação garantidora de direitos, quando não fornecida pelo Estado, impede o início do processo comunicacional. Para que a comunicação se estabeleça, são necessários canais eficientes que permitam resposta do receptor. Portanto, comunicação é diálogo.

Esse diálogo exige canais desobstruídos, tempo disponível tanto do emissor quanto do receptor e uma estrutura estatal planejada e bem operada.

Diálogo e debate pressupõem circularidade da comunicação, mas diferem por envolverem conflitos ou divergências que exigem soluções. Dialogar é buscar entendimento; debater é apresentar argumentos em defesa ou oposição a uma tese, decisão ou ordem.

Participação significa “tomar parte”. Frequentemente usada em discursos governamentais, não implica corresponsabilidade nem poder deliberativo. Participar é ter direito de ouvir, opinar e votar.

Compartilhar é ir além: implica ouvir, falar, deliberar e assumir responsabilidades sobre as decisões. O diferencial do compartilhamento é o poder de decisão.

Os processos de informação, comunicação, diálogo, participação e compartilhamento são válidos em qualquer contexto, seja público ou privado.

Breve panorama de teorias e classificações

As teorias da comunicação divergem, mas todas partem de um modelo básico: emissor (ou fonte) transmite mensagem por um canal (ou meio) a um receptor (ou destinatário), que pode dar uma resposta (feedback). Cada elemento pode estar no singular ou plural.

Exemplo: um programa de rádio tem um emissor e milhares de receptores, que podem enviar respostas por telefone ou internet.

Na comunicação pública, destacam-se o emissor (o Estado) e os receptores (a sociedade), com ênfase no primeiro.

Classificações: Intrapessoal: indivíduo reflete consigo mesmo. Interpessoal: duas ou mais pessoas interagem. Em grupo: três ou mais pessoas em processo comunicativo. De massa: mensagem de uma fonte para muitos receptores, com poucas oportunidades de resposta.

As redes sociais ampliaram a comunicação, permitindo milhares de emissores com mensagens que podem alcançar uma ou milhões de pessoas.

A comunicação organizacional

A comunicação organizacional ocorre em instituições formalmente estruturadas. Para Gaudêncio Torquato, há três dimensões: Comportamental: recursos humanos e desenvolvimento organizacional; Social: relação da organização com o sistema social; Cibernética: captação, armazenamento, tratamento e disseminação de informações.

Margarida Kunsch propõe o conceito de comunicação integrada, que reúne comunicação institucional, mercadológica, interna e administrativa, promovendo sinergia.

Relações públicas planejam a comunicação estratégica, buscando harmonia entre públicos. Propaganda atua no plano ideológico, enquanto publicidade trata da divulgação de produtos e serviços. O jornalismo pauta e relata fatos conforme critérios editoriais.

A pesquisa mostra que o planejamento comunicacional eficaz depende da articulação dessas especialidades. O marketing também compõe esse espectro.

A evolução tecnológica impacta fortemente a comunicação, permitindo que pessoas e instituições a utilizem como instrumento de consumo, influência ou política.

Um apanhado sobre comunicação pública

A comunicação pública é área recente de pesquisa. Frequentemente estudada a partir da relação entre governos, mídia e cidadania, envolve temas como opinião pública e participação política.

Louise Phillips analisa discursos estatais sobre meio ambiente, destacando a “democratização da responsabilidade”. Dominique Wolton enfatiza a comunicação política como espaço de debates entre líderes, jornalistas e opinião pública.

Jan van Cuilenburg e Denis McQuail identificam três paradigmas da política de mídia: 1. Serviços emergentes de comunicação (até 1945). 2. Serviço público de mídia (1945–1990), com privatizações e quebra de monopólios. 3. Política contemporânea da comunicação (anos 1990 em diante).

Outros pesquisadores, como Joke Hermes, apontam o impacto das novas tecnologias no conteúdo e recepção da mídia. Maria Heller analisa as transformações globais da comunicação.

Jo Bardoel e Leen d’Haenens discutem a responsabilidade social e a boa governança no setor midiático. David Deacon e Wendy Monk estudam a comunicação pública de órgãos governamentais no Reino Unido.

No Brasil, a comunicação pública é muitas vezes abordada sob o viés eleitoral e midiático, mas também em relação a movimentos sociais e organizações do terceiro setor.

Ana Lúcia Novelli enfatiza o papel da comunicação pública para participação política e cidadania, relacionando governabilidade (exercício legítimo do poder) e governança (forma de implementação de projetos).

A produção acadêmica cresce, mas ainda são poucos os estudos voltados aos fundamentos da comunicação pública como garantia de direitos.

 

HASWANI, Mariângela F. Comunicação pública: bases e abrangências. São Paulo: Saraiva, 2017.